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O FILÓSOFO: UM SER ROMÂNTICO

agosto 30, 2022Prof. Dr. Joceval Bitencourt


Não se sabe o porquê, ou se sabe, e, por elegância, para com as pobres vítimas, evitam constrangê-los, poucas pessoas se aproximam dos filósofos, poucos se interessam pelo o que eles falam. Evitam as suas perguntas. São identificados como homens alienados, desprovidos de qualquer habilidade para responder às demandas de um mundo prático. Incapazes de trocar uma lâmpada. Vivem com a cabeça na Lua. Aristófanes, famoso comediógrafo da antiguidade grega, fazendo chacota com Sócrates, começa a sua peça: AS NUVENS, colocando-o no alto de uma árvore, fora do mundo da realidade, a contemplar estrelas, sem se preocupar com o que, de fato, está acontecendo com a realidade objetiva do mundo onde vivem os homens reais, com as suas dores e com as suas dívidas... A pilheria que Aristófanes faz com Sócrates, tem a intenção de alcançar à todos que passam a filosofar ao modo socrático. Começa Aristófanes: [...] STREPSIADES (Vendo Sócrates): Olhe ali! Quem é aquele cara que está empoleirado naquela cesta suspensa no ar? DISCÍPULO: É ele!. STREPSIADES: É ele quem? DISCÍPULO: Sócrates! STREPSIADES: Alô, Sócrates! (Dirigindo-se ao Discípulo.) Chame você bem alto! DISCÍPULO: Chame você mesmo; não tenho tempo. (Sai o Discípulo.). STREPSIADES: Sócrates! Socratesinho! SÓCRATES (Suspenso numa cesta.). Por que me chama, criatura efêmera? STREPSIADES: Para início de conversa, o que é que você está fazendo aí? SÓCRATES: Percorro os ares e contemplo o sol. STREPSIADES: Você está olhando dessa cesta os deuses daí de cima, e não a terra, como devia! SÓCRATES: De fato, nunca eu poderia distinguir as coisas celestes se não tivesse elevado meu espírito e misturado meu pensamento sutil com o ar igualmente sutil. Se eu tivesse ficado na terra para observar de baixo as regiões superiores, jamais teria descoberto coisa alguma, pois a terra atrai inevitavelmente para si mesma a seiva do pensamento. É exatamente isto que acontece com o agrião. STREPSIADES: Que papo é este? O pensamento atrai a seiva do agrião? Calma, meu Socratesinho! Desça até onde eu estou, para me ensinar as coisas que vim aprender aqui [...]. Platão, homem dedicado ao mundo das ideias, ao qual dedicava-se à tal ponto que esquecia do mundo real, mais que isso, entregava-se tão plenamente ao seu exercício que perdia a noção de cuidar do próprio corpo, o que o teria levado à morte, quando – segundo lendas – infectado por uma infestação de piolhos não tratada. Outros exemplos se seguem, indicando que os filósofos estão mais preocupados com o mundo das ideias do que com os Perdiculus habitando às suas cabeças. Conta a história que um deles, chamado Tales de Mileto, enquanto contemplava as estrelas, caiu em um poço, tornando-se motivo de chacota de uma escrava que o acompanhava. Esse tropeço filosófico se espalhou por todos os cantos, servido como referência para identificar o modo de ser e agira dos filósofos. Diôgenes Laêrtios, em sua fabulosa obra: Vida e doutrinas dos filósofos ilustres, relembra o tropeço do lunático filósofo: "Dizem que, certa feita, quando uma velha senhora o tirou de casa para que pudesse observar as estrelas, ele caiu num fosso, e seu grito por socorro fê-lo obter da senhora a resposta: “Como podes almejar saber tudo sobre o céu, Tales, quando sequer consegues ver o que está diante dos teus pés?". São pobres, não porque desdenham do dinheiro, mas porque são desprovidos de talento para conquistá-lo. Preferem viver da ajuda alheia, à exemplo de Sócrates. Contrariando a essa tese, Aristóteles, no primeiro cap. do livro A PLÍTICA, lembra que o filósofo poderia ser rico se assim o desejasse, mas essa não é a sua intenção. Para comprovar a sua tese, nos apresenta o exemplo de Tales de Mileto que, ao que parece, era um filósofo dotado de outras habilidades além de contemplar estrelas e cair em poços. Nem preciso dizer que foi contemplando as estrelas que o lunático filósofo conseguiu ver aquilo que, outros homens, com os pés acorrentados ao chão, não conseguiam enxergar. Melhor que Aristóteles nos diga qual foi a estratégia usada por Tales: “Consta que o censuravam por ser pobre, atribuindo isso à inutilidade da filosofia. O fato é que, devido aos seus conhecimentos de astronomia, previu a proximidade de uma boa colheita de azeite, quando ainda era Inverno, alugou com o pouco dinheiro que tinha todos os lagares de Mileto e Quios, gastando apenas uma pequena soma, já que não havia outras ofertas mais avultadas. Quando chegou o tempo da colheita, e porque muita gente acudiu ao mesmo tempo e com urgência à busca de lagares, arrendou-os ao preço que bem entendeu, não só obtendo uma soma elevada de dinheiro como provando que era fácil, para os filósofos, tornarem-se ricos se assim o desejassem, embora não fosse essa, de fato, a meta das suas aspirações” (Aristóteles – A política, Cap. I)

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