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A ARTE DE JUAN LASO - UM CLÁSSICO MODERNO

junho 28, 2018Prof. Dr. Joceval Bitrencourt


É possível dimensionar o desenvolvimento de uma sociedade pelo grau de desenvolvimento de sua filosofia, de sua ciência, de sua arte. Quanto mais filosofia, mais ciência, mais artes, de boa qualidade, claro, mais rico espiritualmente é um povo. Hegelianamente falando, a história não é nada mais do que a produção do espírito. A arte é um desses momentos, no qual o espírito produz, se alimenta e se reconhece. 

Olhando para o Brasil, como um todo, o espírito encontra-se faminto, olhando para a Bahia, em particular, o espírito encontra-se em estado de inanição. Em todos os tempos, o homem sempre encontrou na arte o espaço privilegiado para elevação do espírito, reconhecendo nela o poder de toná-lo mais humano/divino. Destoando do normal, encontramos na Bahia, vindo de outras bandas, cidade de Reinosa, província de Contábeia na Espanha, o artista plástico Juan Laso, nos oferecendo sua boa arte. Sua obra, herdeira de um realismo refinado, em suas mais diversas expressões, seja na pintura, na escultura, no retrato, na paisagem, ou em outras manifestações, não se revela por inteiro, provoca, incita no espectador que ele recorra à razão e à sensibilidade ao contemplá-la. Vai além, desinstala o sujeito de sua indiferença, convidando-o a uma co-autoria, que também ele possa, no limite de seu olhar, exercer seu delírio estético.  Não é um trabalho de fácil acesso, ele não faz concessões, pelo menos até o presente momento, no exercício de sua liberdade estética, mantém-se fiel à academia que, desde a sua origem, sempre tomou o rigor do conceito, validado pela bitola do método, como paradigma do saber verdadeiro. Tal rigor estético, com certeza, é conseqüência da herança que recebera em seu processo de formação, seja na Universidade de Salamanca - Espanha, onde cursou Pintura Contemporânea, ou em estudos desenvolvidos na Faculdade Brera na Itália, ou na Universidade Católica do Chile.

Soma-se a essa formação acadêmica, a influência que sua obra recebe de grandes gênios da pintura, como o renascentista Pierro Della Francesa, um transgressor estético de seu tempo; Pierre Puvis de Chavannes, impressionista francês do século XIX; Gustave Moreau, simbolista Francês do século XIX, Balthus, famoso pela sensualidade de suas adolescentes, entre outros. Juan Laso é um artista, não se pode negar, profundamente influenciado pelos clássicos, entretanto, deste não é prisioneiro, seu olhar volta-se para o futuro, para um devir estético sempre buscado. Poder-se-ia dizer que ele faz arte, tendo a cabeça voltada para a academia e o coração voltado para o mundo. Se a academia lhe ofereceu a forma, a sensibilidade, a vida, lhe oferece a matéria, sobre a qual a forma é aplicada.

Apropriou-se do conceito, sem perder a sensibilidade. Aqui, não há conflito entre Apolo e Dionísio, ao contrário, aliam-se em busca de um bem comum: a epifania do belo. Em breve, muito em breve, a Bahia, com sua força, luminosidade, religiosidade, com todas as suas contradições sociais, com todos os seus santos e orixás, com todos os seus pecados, estará, mesmo que timidamente, presente na obra deste artista.  A Bahia não perdoa, todos que por aqui aportam, seduzidos pelo seu canto, acabam incorporando as cores da nova terra à sua estética, à sua arte, quando não, à própria vida.  Que diga Caribé, Pierre Vergé, Karl Heinz Hansen (Hansen Bahia), Frans Krajcberg, Hans Koellreutter, o músico e artista plástico Walter Smetak, a bailarina polonesa Yanka Rudska, o teatrólogo Martim Gonçalves, a arquiteta Lina Bo Bardi, entre tantos outros...

Mas ainda é cedo para se contemplar o espírito da Bahia na obra de Juan Laso... A arte precisa de tempo, tempo do conceito, tempo da vida, tempo de vivência, tempo no qual ela se realiza, vai incorporando experiências novas, metamorfoseando-se, renovando-se com as diversidades que a vida vai lhe oferecendo... É nesse percurso que a obra vai se construído, buscando, em cada expressão, a somatória de uma estética platonicamente vislumbrada, jamais alcançada... Ao contemplar arte de Juan, imagina-se que ela é construída com muita dor, sofrimento, como se cada traço, cada movimento, fosse dada em um espaço de tempo muito logo, e, entre este intervalo de tempo, encontra-se ele, diante da tela, pensando, refletindo, demoradamente, o próximo passo, o próximo movimento que o conduzirá ao mais belo possível... A impressão que se tem, é que, se não fosse as vicissitudes da vida - o artista sobrevive de sua arte -, ele não concluiria nenhum obra, porque não saberia quando esta alcançou, finalmente, o belo buscado. O próximo trabalho é sempre uma tentativa - novamente fadada ao fracasso - de superação das faltas cometidas no trabalho anterior.

Assim permanece Juan, neste movimento pendular, entre o que o limite da condição humana lhe impõe fazer, e o que o seu delírio estético deseja alcança. "Mesmo que já se tenha feito uma longa caminhada, sempre haverá mais um caminho a percorrer", é o que nos diz Santo Agostinho. Espera-se que em muito breve - muito breve mesmo - este Quixote das artes, encontre na Bahia o acolhimento - e o reconhecimento - que lhe é merecido.  Que mais Juan(s) aportem à baia de todos os santos, trazendo em suas algibeiras as mais diversas expressões artísticas. A Bahia agradece. Já há muito ela clama por novos ares, novas luzes que a liberte dessa danosa estética de auto-ajuda, estética de rebanho, produzindo uma "arte" derivada de uma proto-racionalidade, que, visando sempre o consumo fácil e rasteiro, mantém-se prisioneira do corpo, dos sentidos, do senso comum, não sendo capaz de deslocar-se do chão, alçar voou, contemplar as estrelas...

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