O CRIME

março 17, 2025Prof. Dr. Joceval Bitrencourt

    

                                           

                                         

 

Uma imagem contendo edifício, mulher, em pé, segurando

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                                                           O CRIME

 

Não é preciso muito para matar uma pessoa: basta convencê-la de que ninguém precisa do que ela faz. (Dostoiévski)

 

Gosto dos crimes noturnos, especialmente porque, ocorrendo enquanto todos dormem, eles não incomodam ninguém — exceto a vítima.

 Fora do burburinho do mundo, em um silêncio metafísico, um ser deixa de   ser visto.

O crime de Raskólnikov, em particular, provoca-me...

É bom saber que a culpa é inteiramente sua. Ao mantê-la sob seu domínio, você passa a conviver com ela, controlá-la, domá-la e subordiná-la às suas rédeas, eliminando a necessidade de que um desconhecido – um intruso qualquer, dizendo-se da lei – apareça para chancelar quem você é. Essa responsabilidade torna-se exclusivamente sua; é um direito conquistado por você. Em torno dele, você ergueu cercas e proclamou: “Este crime é meu.” Ninguém tem o direito de ultrapassar os limites cercados. O crime transformou-se em bem particular, uma propriedade privada.

Se alguém tem a intenção de julgar um crime, que vá cometer o seu; mas esse, em particular, tem a digital da minha alma, não deixarei ninguém  farejá-lo. Quero vivenciá-lo em um enfrentamento solitário. Justificá-lo — ou não — dependerá das minhas cabriolas morais.

Sou o meu próprio carcereiro; minhas inquietações transformam-se nas paredes da minha cela. Longe do olhar do outro, terei que enfrentar, sozinho, as consequências do meu ato e, antes que o julgamento final lance seu veredito, não conseguirei silenciar os gritos das motivações que me impulsionaram ao crime, levando-me a me perder e, às vezes, a me encontrar nas infinitas possibilidades do meu labirinto existencial. Nessa tortura de dores, sou simultaneamente o juiz e o réu. Cometi o crime; cabe a mim, e somente a mim, julgar-me.

Haverá juiz mais implacável que este?

“Eu me matei e não a velhota! Ali, aniquilei-me de uma vez por todas! … A velhota foi morta pelo diabo, e não por mim…” ( Dostoiévski – Crime e Castigo)

Sempre tive medo de sangue, mas o fileto que escorria do canto da boca da vítima, enquanto seus olhos parados, fixos no teto, se apagavam para sempre,  proporcionava-me um prazer inexplicável. Fazia-me bem saber que aquele corpo sem vida, abandonado descuidadamente ao chão, encontrou em minhas mãos a consumação de seu destino.

A noite começava – lá pelas zero horas – e, ao adormecer, iniciou-se o meu tormento. Nem o sono havia se instalado em mim quando, de repente, vi-me matando um homem.

Não me pergunte o motivo; simplesmente, matei-o.

Resta-me apenas uma lembrança difusa: ao meu lado, uma amiga — prestativa e solidária às minhas carências sexuais — sussurrava-me: "Mate-o. Mate-o."
Obedeci. E matei-o.

Por quê? Não sei. Foi um ato gratuito – como tantos outros que cometemos quando a razão, essa renitente sentinela, por um instante, se rende ao cansaço.

Entretanto, não posso negar que, mesmo sem ter uma causa pessoal ou um desafeto com a vítima, fui tomado por um sentimento de prazer ao assumir a responsabilidade de conduzi-la ao êxito letal.

O que me proporcionava prazer não era tanto o ato de tirar uma vida, mas a ausência de motivo para fazê-lo: uma morte gratuita, sem causa ou finalidade, que silenciava um corpo para sempre. A falta de motivações tornava o ato sublime e leve, como uma pena que, sem resistência, se deixa levar pelo vento.

Encontrar uma justificativa à qual a culpa possa ser ancorada alivia o peso da cruz do pecador. Pode-se alegar que o crime não foi cometido por vontade própria, mas motivado por um impulso, um desejo, razões políticas, vingança, traição, paixão, ambição de poder ou até mesmo por uma insignificante antipatia pessoal.

Olhava para todos os lados, inclusive para trás, em busca de uma motivação segura na qual pudesse albergar minha culpa. Tentativas em vão.

Diferente do meu, nem todo crime é desprovido de causa. Não se pode negar que  o fato de um crime possuir uma causa que o justifique lhe confere certo aspecto de dignidade, quase de nobreza. Com ou sem razão, se sua ação foi justa ou injusta, pouco importa; o que realmente importa é que o agente pode justificar o seu ato: não  se trata de um gesto vazio, desprovido de intencionalidade, um ato errante, sem eira nem beira.

 Por exemplo, matar em nome de Deus, em defesa da pureza de seus mandamentos, pode ser considerado tão nobre que santifica a ação do matador. Nesse caso, não haveria como condená-lo, pois a graça divina já o teria perdoado.

Lembrei-me dos crimes cometidos pelo velho monge cego e bibliotecário Jorge de Burgos, que, para impedir o acesso ao tratado de Aristóteles sobre o riso, assassinava todos os monges que ousavam buscá-lo na biblioteca. Para ele, o riso dissolvia o medo — e, sem medo, a crença e a ordem divina tornam-se vulneráveis. Em O nome da Rosa, Burgos deixa claro que a autoridade religiosa se sustenta no temor, não na razão.

A ele, como fiel disciplinador de almas e soldado da fé, coube a responsabilidade de corrigi-las, eliminando aquelas almas consideradas curiosas. Mantê-las vivas significava que o mal poderia se disseminar pelo mosteiro, ameaçando não apenas a instituição, mas também o plano que o bom Deus tem para os seus filhos. Seu crime, portanto, apresentava-se como uma oferenda a Deus;  sua ação era de louvor, uma ação salvífica.

Acabara de matar um piolho humano, descendente de uma lêndea sem nome, sem história, de arvore genealógica desconhecida -  num gesto tão mecânico quanto descartar o lixo na calçada ou chutar a pedra que atrapalha o caminho.

O fim se consumou. Era como uma pedra lançada, sem volta. De fato, tratava-se de uma morte sem ressurreição. Agora, já não havia alternativa: encontrava-me prisioneiro da escolha que fizera. Trouxera o fim para dentro de mim. Eu me tornei isso.

Sem piedade, ela dissecava minha alma e cutucava minhas feridas, alcançando as camadas mais profundas e silenciosas em busca de um sentido, de uma justificativa plausível para aquele ato. Correndo o risco de me perder, buscava-me. Vivia em um estado de tensão permanente; um leve sabor de fim tocava-me por inteiro. Quanto mais eu olhava para o abismo, mais o abismo olhava para mim.

Encontrava-me preso em um inferno sem portas – um mundo sem retorno, sem arrependimento. Era o fim. A realidade já havia alcançado o seu objetivo último, a sua causa final, repousando no gozo de sua consumação.

Já não era possível recomeçar sobre novos alicerces. Era tarde demais: o espetáculo havia chegado ao fim, as cortinas estavam cerradas. Matei. Acabou. Ninguém "desmata".

Chegara a hora de voltar o olhar para si mesmo, encarando as próprias culpas. O portal do abismo escancarou-se à minha espera. Eu acabara de fazer dele a minha morada. A maldição me alcançou, apossou-se de mim.

O reino de Tebas está em risco: seu governante é o assassino. “Tu és o assassino daquele cujo assassino procuravas”.

Ao que parece, essa alma conflituosa — repleta de culpas que o pobre coitado sequer conseguia explicar ou identificar em sua origem — já se formara antes mesmo do crime. Em sua alma virginal, o delito a ser cometido já estava impresso. Quando Deus distribuiu os dons entre os homens, presenteou-o com o dom de matar. Sem que soubesse, já chegara a este mundo com uma missão: matar.

Observando mais de perto, percebe-se que aquele crime não foi meticulosamente planejado, nem resultado de noites perdidas em sua configuração. Não: tudo ocorreu de maneira natural, como o fruto que, ao se ver maduro no pé, quer morrer, ou como o despertar de uma potência adormecida na alma, ansiosa por se atualizar em sua causa final.

Matar foi apenas um escape, um alívio, uma espécie de desafogo que ele encontrou para suavizar e distensionar as suas próprias dores. Para ele, aquele ato assemelhava-se a um domingo no parque, contemplando o mundo do alto de uma roda-gigante.

Roubar a vida de alguém me fez conviver com a morte. Não mais como algo distante, que eu apenas observava, no limite dos sentidos, sem que a minha alma fosse tocada, mas como presença íntima. Ao matar aquela coisa que, na ausência de definição melhor, chamavam de homem, deixei que a morte habitasse minha alma. Ela se entranhou em mim, marcando-me a ferro em brasa.

Lembrei-me de Raskólniko, que matou gratuitamente uma velha usurária insignificante. O machado de Raskólnniko era a minha arma? Cometíamos o mesmo crime? O pecado da vítima dele eu conhecia; o da minha, era-me desconhecido. Perguntei-me: será que o crime dele não colaborou para que eu também me tornasse um assassino sem causa, ancorado no nada?

 

... Ele desabotoou, então, o capacete, desembaraçou o machado do laço, mas sem retirá-lo inteiramente. Limitou-se a mantê-lo seguro com a mãos direita, debaixo da roupa. Uma fraqueza terrível apoderara-se-lhe das mãos. De instante a instante, sentiu que enrijeeciam mais. Temia deixar o machado escapulir. Súbito, a cabeça começou a rodar.

- Mas como ele arrumou isso? Está tudo embaraçado! – disse a velha, movimentando-se em direção a Raskólnikov. Não havia um segundo a perder. Tirou o machado de sob o capacete, levantando-o com as duas mãos e, com um gesto seco, quase mecânico, deixou-o cair na cabeça da velha. Suas mãos pareciam-lhe não ter mais forças.  Entretanto, readquiriu-as assim que vibou o primeiro golpe.

A velha estava com a cabeça descoberta, como de hábito. Os cabelos claros, grisalhos e escassos, abundantemente oleados, formavam uma pequena trança, presa à nuca por um fragmento de pente. Como era baixa, o golpe-a atingiu-a nas têmporas. Deu um grito fraco e caiu, tendo tido, no entanto, tempo de levar as mãos à cabeça. Uma delas sustinha inda o penhor. Então Raskólnikov malhou-a  com toda a força, mas duas vezes. O sangue corria como se jorrasse de um copo caído. O corpo fraquejou: recuou para deixá-lo cair, depois debruçou-se sobre seu rosto. Já estava morta, os grande olhos estatelados pareciam querer pular das órbitas. A testa e o rosto, inteiros, estavam contraídos e desfigurados pelas convulsões derradeiras. Colocou o machado no chão, junto do cadáver... Estava na plenitude de sua presença de espírito e não sentia mais nem perturbação, nem vingança, apenas suas mãos continuavam a tremer. Mais tarde lembrava-se de ter sido excessivamente cuidadoso, prudente e mesmo capaz de aplicar todos os seus cuidados para não se sujar...

Iniciava-se então uma inversão de perspectiva: em vez de buscar descobrir o criminoso analisando os fatos, na expectativa de que estes revelassem provas justificadoras, focava-se no próprio criminoso – em suas camadas mais profundas e silenciosas, nos labirintos psicológicos de sua alma – em busca de um sentido para um ato sem sentido.

Nem sequer questionei minha amiga sobre o motivo de matar aquele desconhecido. Matar alguém conhecido – que feriu nossa alma – é diferente; agora, tirar a vida de um ser invisível, sem qualquer representação em nossas vivências, era simplesmente matar por matar. E foi exatamente isso que fiz.

Num ato puramente mecânico, tirei a arma da cintura — não me lembro bem se era um revólver ou um machado —, apontei-a para o desafeto — não sei de quem; apenas sei que não era meu — e disparei: três tiros... ou talvez três machadadas. Tanto faz. O corpo tombou em silêncio. Sem nome, sem endereço, sem passado, sem futuro, sem identidade. Restava apenas um corpo – nada além de matéria extensa – estendido no chão, sem vida.

Saber que tive o poder de tirar aquilo que Deus concedeu — a vida — encheu-me de um prazer perturbador, como se eu dissesse: “Você tem o poder de dar; eu, o de tirar.” Em certa medida, nossos poderes se equivaliam. A um coube acender a vela; ao outro, apagá-la. Com o poder de um, fez-se a luz; com o do outro, as trevas.

Sem que eu tivesse plena consciência, iniciava ali uma disputa com Deus. Queria feri-Lo, destituindo-O do poder de controlar a vida, concedendo-a e tirando-a, ao seu bel prazer.

Não demorou para eu saber que o assassino daquele desconhecido já estava preso. Que bom – assim não seria incomodado. Contudo, uma injustiça se impunha: um homem inocente cumpria a pena que deveria ser minha.

Cheguei até a agradecer a Deus, sentindo que Ele cuidava de mim e me protegia. Quem sabe, sem que eu soubesse, o grande julgador do universo estivesse fazendo a coisa certa – afinal, li no Livro de Jó que nada acontece por acaso e que tudo está sob os cuidados de Deus. Vai saber se, naquela ação além da compreensão humana, eu não estivesse, sem perceber, cumprindo uma missão divina.

Não sabia em que hora da noite me encontrava, mas meu corpo sentia a eternidade de cada instante. As noites de pesadelo são sempre longas, pois o sono é superficial – ficamos entre a vigília e o adormecer, à espera da chegada da luz do sol que devolve o mundo à ordem aparente.

Não me lembro de quantos anos se passaram, mas por mais de cinco, aquele homem permaneceu preso em meu lugar. Mantive-me em silêncio, como se coubesse a Deus fazer justiça – e, de fato, Ele o fez. Quem sou eu para pôr sob suspeita o veredito do Juiz dos juízes?

A mandante do crime, tão criminosa quanto eu, também se calou. Entre nós, um pacto foi urdido: cada um cuidaria do crime do outro, e ambos simulávamos uma amnésia profunda em relação ao ocorrido. No entanto, como se sabe, nenhuma mentira ou transgressão permanece oculta para sempre. Em pouco tempo, o fio do novelo se desgarrou, revelando toda a trama. Minha cúmplice informou-me que começavam a suspeitar que o criminoso preso era inocente, enquanto o verdadeiro culpado continuava livre – o olhar da lei começava a se voltar em minha direção.

Por estranho que possa parecer, saber que a justiça me olhava trazia-me um certo alívio. De fato, eu estava livre, não me encontrava encarcerado, mas apenas fisicamente livre; estava, porém, aprisionado pela própria culpa.

A única forma de me libertar seria ser preso: pagar pelo meu crime e cumprir a sentença. Na cela, meu corpo estaria confinado, mas a minha alma estaria livre da culpa, livre da prisão moral. O corpo, confinado. A alma, livre.

Não me sentia culpado pelo assassinato — senti prazer, como já disse. O que me corroía, porém, era saber que um inocente cumpria a pena que me cabia. Minha culpa não era do corpo, era do espírito. Ela tolheu meus passos e tornou o fardo mais pesado a cada dia — tornei-me um trôpego. Sem que eu percebesse, fiz-me moralista; passei a ser meu próprio juiz — e o pior deles. Buscava a minha própria prisão. Um imperativo moral impelia-me a libertar aquele que, por minha causa, encontrava-se preso. Matar fora simples; o difícil era despir-me da camisa de força moral que me fora vestida na infância.

Lembro-me: um dia, roubei um livro – o roubo deu-me prazer; noutra ocasião, matei um homem – o crime também me deu prazer. Tornava-me viciado nas transgressões. Como um dependente, buscava doses  cada vez maiores: cada delito era um veneno mais forte e, com ele, um prazer crescente na medida do perigo. O risco me excitava. Caminhava sobre a linha invisível que separa o prazer da morte. A cada passo, a incerteza do que viria — ou do que não viria — inflamava ainda mais meu desejo. Excitava-me o caminho, não a chegada.

Eros e Tânatos, entrelaçados, urdiam minhas ações; eu não passava de um fantoche em seus dedos. Assim, movido por um impulso  de prazer que se tornara absoluto, deixei-me levar em direção àquele crime...

Meus hormônios — dopamina, serotonina, testosterona, endorfinas, ocitocina, prolactina — deixavam de travar batalhas entre si e conspiravam em uma única missão: oferecer-me o prazer mais pleno. O crime transformava-se em uma festa; bailava em paz, como se ninguém estivesse me olhando. 

Quando o dia mal amanhecia, minha cúmplice aproximou-se e aconselhou-me a me entregar. Todos já sabiam que eu era o verdadeiro criminoso; a lei batia à minha porta. Segundo ela, eu deveria assumir o crime sem arrastá-la para o delito e, em troca, ela providenciaria, por meio de advogados – inclusive seu marido – uma redução da minha pena. Eu sabia, porém, que ela não cumpriria sua palavra, pois sua única preocupação era livrar-se daquele infortúnio.
Apesar de compartilhar a culpa com a minha “amiga”, a decisão de matar fora minha. Coube-me a responsabilidade de puxar o gatilho naquele dia fatídico. O delito era todo meu; cabia-me por inteiro. Eu era o verdadeiro assassino.

Sem dar ouvidos às palavras dela e ciente de que estava sozinho, decidi me entregar. Dirigi-me ao centro da cidade e fui até o prédio onde se encontrava o homem da lei. Peguei o elevador e subi até o quinto andar. Após um longo corredor, ladeado por diversas portas, deparei-me com uma que exibia a placa: “Dr Juiz”.

Entrei  e encontrei uma sala pouco iluminada, de atmosfera sombria. No canto, uma mesa; encostada à parede, uma poltrona de três lugares. Atrás da mesa, uma secretária de ar burocrático – lembrando uma funcionária de cartório – atendeu-me. Aproximei-me e disse:

- Preciso falar com o Dr. Juiz.
— “Por favor, aguarde, ele encontra-se em atendimento”, respondeu-me.

Tinha por hábito gastar o tempo de espera bisbilhotando a vida alheia. Sempre o fiz enquanto aguardava atendimento médico. Na sala de espera, entretinha-me imaginando a vida daquelas pessoas que, assim como eu, buscavam os cuidados dos filhos de Hipócrates. Seriam casadas? Em que trabalhavam? De onde vinham? Amavam? Eram amadas? Quais seriam seus pecados? Suas taras? Teriam cometido algum crime? Qual teria sido o seu modus operandi?  E como se comportariam no segredo de suas intimidades?

É quase uma forma de terapia entreter-se com a vida dos outros; observar a existência alheia poupa-nos de horas excessivas de exame próprio. Sempre que podia, evitava esse encontro: visitar o interior do meu interior era arriscar-me demais. Quando essa possibilidade se insinuava, lembrava-me de Fogo-Fátuo,  de Drieu La Rochelle, no qual o personagem Alain Leroy decide, numa noite, avaliar a própria vida; ao fim da retrospectiva existencial, ouve-se um estampido — um tiro. Faltando-me coragem para olhar-me tão de perto, por instinto de preservação, desviava o olhar em direção a um “não eu” qualquer, de preferência um desconhecido – só para fugir de mim.

Em certa medida, projetamos nesses desconhecidos o que não queremos ver maculando a nossa alma. Não há muita graça em percorrer caminhos já trilhados, nem em visitar terras já conquistadas. Como um marinheiro curioso, buscava desbravar novos mares.

Infelizmente, naquela sala, entre mim e a secretária, não havia mais ninguém. O silêncio era absoluto — apenas o velho relógio, no alto da parede, marcava, com seu irritante tique-taque, a lenta passagem do tempo. O cenário não convidava a permanecer. As paredes, manchadas e opacas, pareciam não receber uma demão de tinta há anos. Cortinas encardidas pendiam das janelas, imóveis. No chão, um velho tapete desbotado ainda insinuava o desenho de uma catedral – ou algo próximo disso -, mas o tempo e os passos lhe haviam apagado as formas.

O ar tinha um gosto acre, uma lembrança persistente de fumaça e tabaco, como se todo o cigarro do mundo tivesse sido fumado naquele lugar – e seu odor se impregnara em cada poro daquelas paredes. Era, de fato, um ambiente feio e insalubre. Mas, por estranho que pareça, eu não queria sair dali; aquele lugar me atraía. Sentia-me confortável em sua decadência; nossas decadências se comunicavam silenciosamente.

Faltava matéria humana para que eu pudesse exercer meu hábito. Um certo desespero abateu-se sobre mim e, sem alternativa, vi-me na iminência de correr o maior dos riscos: olhar para mim mesmo.

Ufa! Que alívio. Um barulho vindo de fora quebrou o silêncio da espera. De repente, entraram dois policiais conduzindo um homem de péssimo aspecto: cambaleante e algemado. Prenderam-lhe as algemas ao braço de uma cadeira; ali ficou sentado, quase adormecendo. Percebi que balbuciava o nome de uma mulher, sempre acompanhado da mesma frase: “Eu te amo.” Como um mantra, repeti-a incessantemente.

Perguntei-me: quem seria essa mulher que aquele bêbado tanto amava? Que mulher não invejaria ser tão amada? Seria ela sua esposa, sua mãe ou uma amante?  Sem me dar conta, já exercia o que mais gostava de fazer enquanto esperava: especular sobre a vida alheia.

Não demorou muito e o enigma foi revelado: ele matara uma mulher – a mesma cujo  nome murmurava sem cessar. Não suportara a traição. Amara demais. Matara.

Naquele momento, em oposição aos românticos empedernidos, constatei: quem ama, mata.

Éramos — ele e eu — criminosos. Por veredas distintas, havíamos arrancado alguém deste mundo e lançado-o ao poleiro das almas. Só isso nos aproximava; no mais, nossos crimes não se tocavam. O dele fora um crime comum, um mero delito; o meu, uma verdadeira obra de arte.

Em estado de embriaguez, sem pleno domínio de si, ele matou a mulher que amara. Dominado pela cólera, perdeu a razão – um crime passional. Crimes assim ocorrem diariamente: um bêbado mata a amada, um ato banal, próprio de um demente. Na manhã seguinte, quando a bebedeira passasse, talvez sequer se lembrasse do delito.

Meu crime, ao contrário do dele, era único. Não houve paixão nem traição: eu não estava embriagado e não nutria pela vítima qualquer afinidade ou admiração — era-me absolutamente indiferente. Foi um crime gratuito, sem motivações, despido de códigos morais: uma tábua em branco -  sem leis, sem deuses, sem Sócrates ou Cristo a ditarem como o homem deve ser ou agir.  Foi um ato para além do bem e do mal. Cometi-o pelo puro prazer de matar. Perguntar por que eu teria cometido tal crime, seria como exigir do artista que justificasse sua obra. É uma pergunta sem resposta. A arte não se justifica: ela é arte, simplesmente.

Quando tudo terminou, senti-me leve, livre de culpa, estranhamente feliz. O corpo a meus pés parecia uma obra de arte concluída; sentia-me um artista  ao finalizar sua criação. Tal feito exigia celebração. Procurei a garrafa de Château Angélus, guardada na estante à espera de uma ocasião especial. Era esta. Tim-tim - brindei à minha liberdade.

Pensava que, diante da nobreza e da beleza do meu ato, não havia crime algum — havia apenas criação. Meu crime não maculava: sublimava. Era a expressão da beleza em sua causa final, o modelo do delito originário, do qual todos os outros seriam meras cópias, aproximações  imperfeitas desse delito ideal.

Acabara de compor um quadro renascentista. Nada lhe faltava: era antropocêntrico — um homem estendido ao chão, em um quarto quase escuro, não fosse a presença de alguns feixes de luz que atravessavam as frestas do telhado, criando um equilíbrio preciso entre luz e sombra. O crime expressava um realismo intenso. As partes desnudas desenhavam uma anatomia rigorosa, revelando forma e proporção. Olhando mais de perto, era possível perceber o esboço de um sorriso enigmático nos lábios do defunto — um leve traço de ironia e mistério. O meu crime era a minha Mona Lisa. Em meu ato, pulsavam a luz e a sombra de Caravaggio, a harmonia de Rafael e a graça de Botticelli.

Michelangelo levou quatro anos para construir a sua obra-prima, a Capela Sistina. Diferentemente dele, não levei mais de três segundos,  - o intervalo de três pinceladas mortais -, para construir a minha. A obra de arte não se deixa alcançar pela ordem do tempo; desdenha Cronos, ultrapassa anos, meses e dias, deixando-se tocar apenas pelo sopro da eternidade. A obra do florentino, de coração e de formação, assim como a minha, tem algo em comum: ambas transcendem o tempo dos mortais e tocam a morada dos deuses. 

Não condenava os que me julgavam um criminoso: eram apenas homens, desprovidos de senso estético, incapazes de reconhecer a arte onde só veem culpa.

Ouvir uma voz: - Senhor!

Era a secretária, que veio me informar:

- Senhor, pode entrar. O Dr. Juiz o aguarda.

Calmo, seguro da convicção de cumprir um dever moral, levantei-me. Contemplei, pela última vez, aquele pobre coitado que, por amor, cometera um crime comum - como se me despedisse do mundo das sombras – e segui em direção à minha liberdade.

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