O CRIME
março 17, 2025Prof. Dr. Joceval Bitrencourt
O
CRIME
Não
é preciso muito para matar uma pessoa: basta convencê-la de que ninguém precisa
do que ela faz. (Dostoiévski)
Gosto
dos crimes noturnos, especialmente porque, ocorrendo enquanto todos dormem,
eles não incomodam ninguém — exceto a vítima.
Fora
do burburinho do mundo, em um silêncio metafísico, um ser deixa de
ser visto.
O
crime de Raskólnikov, em particular, provoca-me...
É
bom saber que a culpa é inteiramente sua. Ao mantê-la sob seu domínio, você
passa a conviver com ela, controlá-la, domá-la e subordiná-la às suas rédeas,
eliminando a necessidade de que um desconhecido – um intruso qualquer,
dizendo-se da lei – apareça para chancelar quem você é. Essa responsabilidade
torna-se exclusivamente sua; é um direito conquistado por você. Em torno dele,
você ergueu cercas e proclamou: “Este crime é meu.” Ninguém tem o direito de
ultrapassar os limites cercados. O crime transformou-se em bem particular, uma
propriedade privada.
Se
alguém tem a intenção de julgar um crime, que vá cometer o seu; mas esse, em
particular, tem a digital da minha alma, não deixarei ninguém farejá-lo.
Quero vivenciá-lo em um enfrentamento solitário. Justificá-lo — ou não —
dependerá das minhas cabriolas morais.
Sou
o meu próprio carcereiro; minhas inquietações transformam-se nas paredes da
minha cela. Longe do olhar do outro, terei que enfrentar, sozinho, as
consequências do meu ato e, antes que o julgamento final lance seu veredito,
não conseguirei silenciar os gritos das motivações que me impulsionaram ao
crime, levando-me a me perder e, às vezes, a me encontrar nas infinitas
possibilidades do meu labirinto existencial. Nessa tortura de dores, sou
simultaneamente o juiz e o réu. Cometi o crime; cabe a mim, e somente a mim,
julgar-me.
Haverá
juiz mais implacável que este?
“Eu
me matei e não a velhota! Ali, aniquilei-me de uma vez por todas! … A velhota
foi morta pelo diabo, e não por mim…” ( Dostoiévski
– Crime e Castigo)
Sempre
tive medo de sangue, mas o fileto que escorria do canto da boca da vítima,
enquanto seus olhos parados, fixos no teto, se apagavam para sempre,
proporcionava-me um prazer inexplicável. Fazia-me bem saber que aquele corpo
sem vida, abandonado descuidadamente ao chão, encontrou em minhas mãos a
consumação de seu destino.
A
noite começava – lá pelas zero horas – e, ao adormecer, iniciou-se o meu
tormento. Nem o sono havia se instalado em mim quando, de repente, vi-me
matando um homem.
Não
me pergunte o motivo; simplesmente, matei-o.
Resta-me
apenas uma lembrança difusa: ao meu lado, uma amiga — prestativa e solidária às
minhas carências sexuais — sussurrava-me: "Mate-o. Mate-o."
Obedeci. E matei-o.
Por
quê? Não sei. Foi um ato gratuito – como tantos outros que cometemos quando a
razão, essa renitente sentinela, por um instante, se rende ao cansaço.
Entretanto,
não posso negar que, mesmo sem ter uma causa pessoal ou um desafeto com a
vítima, fui tomado por um sentimento de prazer ao assumir a responsabilidade de
conduzi-la ao êxito letal.
O
que me proporcionava prazer não era tanto o ato de tirar uma vida, mas a
ausência de motivo para fazê-lo: uma morte gratuita, sem causa ou finalidade,
que silenciava um corpo para sempre. A falta de motivações tornava o ato
sublime e leve, como uma pena que, sem resistência, se deixa levar pelo vento.
Encontrar
uma justificativa à qual a culpa possa ser ancorada alivia o peso da cruz do
pecador. Pode-se alegar que o crime não foi cometido por vontade própria, mas
motivado por um impulso, um desejo, razões políticas, vingança, traição,
paixão, ambição de poder ou até mesmo por uma insignificante antipatia pessoal.
Olhava
para todos os lados, inclusive para trás, em busca de uma motivação segura na
qual pudesse albergar minha culpa. Tentativas em vão.
Diferente
do meu, nem todo crime é desprovido de causa. Não se pode negar que o
fato de um crime possuir uma causa que o justifique lhe confere certo aspecto
de dignidade, quase de nobreza. Com ou sem razão, se sua ação foi justa ou
injusta, pouco importa; o que realmente importa é que o agente pode justificar
o seu ato: não se trata de um gesto vazio, desprovido de
intencionalidade, um ato errante, sem eira nem beira.
Por
exemplo, matar em nome de Deus, em defesa da pureza de seus mandamentos, pode
ser considerado tão nobre que santifica a ação do matador. Nesse caso, não
haveria como condená-lo, pois a graça divina já o teria perdoado.
Lembrei-me
dos crimes cometidos pelo velho monge cego e bibliotecário Jorge de Burgos,
que, para impedir o acesso ao tratado de Aristóteles sobre o riso, assassinava
todos os monges que ousavam buscá-lo na biblioteca. Para ele, o riso dissolvia
o medo — e, sem medo, a crença e a ordem divina tornam-se vulneráveis. Em O
nome da Rosa, Burgos deixa claro que a autoridade religiosa se sustenta no
temor, não na razão.
A
ele, como fiel disciplinador de almas e soldado da fé, coube a responsabilidade
de corrigi-las, eliminando aquelas almas consideradas curiosas. Mantê-las vivas
significava que o mal poderia se disseminar pelo mosteiro, ameaçando não apenas
a instituição, mas também o plano que o bom Deus tem para os seus filhos. Seu
crime, portanto, apresentava-se como uma oferenda a Deus; sua ação era de
louvor, uma ação salvífica.
Acabara
de matar um piolho humano, descendente de uma lêndea sem nome, sem história, de
arvore genealógica desconhecida - num gesto tão mecânico quanto descartar
o lixo na calçada ou chutar a pedra que atrapalha o caminho.
O
fim se consumou. Era como uma pedra lançada, sem volta. De fato, tratava-se de
uma morte sem ressurreição. Agora, já não havia alternativa: encontrava-me
prisioneiro da escolha que fizera. Trouxera o fim para dentro de mim. Eu me
tornei isso.
Sem
piedade, ela dissecava minha alma e cutucava minhas feridas, alcançando as
camadas mais profundas e silenciosas em busca de um sentido, de uma
justificativa plausível para aquele ato. Correndo o risco de me perder,
buscava-me. Vivia em um estado de tensão permanente; um leve sabor de fim
tocava-me por inteiro. Quanto mais eu olhava para o abismo, mais o abismo
olhava para mim.
Encontrava-me
preso em um inferno sem portas – um mundo sem retorno, sem arrependimento. Era
o fim. A realidade já havia alcançado o seu objetivo último, a sua causa final,
repousando no gozo de sua consumação.
Já
não era possível recomeçar sobre novos alicerces. Era tarde demais: o
espetáculo havia chegado ao fim, as cortinas estavam cerradas. Matei. Acabou.
Ninguém "desmata".
Chegara
a hora de voltar o olhar para si mesmo, encarando as próprias culpas. O portal
do abismo escancarou-se à minha espera. Eu acabara de fazer dele a minha
morada. A maldição me alcançou, apossou-se de mim.
O
reino de Tebas está em risco: seu governante é o assassino. “Tu és o assassino
daquele cujo assassino procuravas”.
Ao
que parece, essa alma conflituosa — repleta de culpas que o pobre coitado
sequer conseguia explicar ou identificar em sua origem — já se formara antes
mesmo do crime. Em sua alma virginal, o delito a ser cometido já estava
impresso. Quando Deus distribuiu os dons entre os homens, presenteou-o com o
dom de matar. Sem que soubesse, já chegara a este mundo com uma missão: matar.
Observando
mais de perto, percebe-se que aquele crime não foi meticulosamente planejado,
nem resultado de noites perdidas em sua configuração. Não: tudo ocorreu de
maneira natural, como o fruto que, ao se ver maduro no pé, quer morrer, ou como
o despertar de uma potência adormecida na alma, ansiosa por se atualizar em sua
causa final.
Matar
foi apenas um escape, um alívio, uma espécie de desafogo que ele encontrou para
suavizar e distensionar as suas próprias dores. Para ele, aquele ato
assemelhava-se a um domingo no parque, contemplando o mundo do alto de uma
roda-gigante.
Roubar
a vida de alguém me fez conviver com a morte. Não mais como algo distante, que
eu apenas observava, no limite dos sentidos, sem que a minha alma fosse tocada,
mas como presença íntima. Ao matar aquela coisa que, na ausência de definição
melhor, chamavam de homem, deixei que a morte habitasse minha alma. Ela se
entranhou em mim, marcando-me a ferro em brasa.
Lembrei-me
de Raskólniko, que matou gratuitamente uma velha usurária insignificante. O
machado de Raskólnniko era a minha arma? Cometíamos o mesmo crime? O pecado da
vítima dele eu conhecia; o da minha, era-me desconhecido. Perguntei-me: será
que o crime dele não colaborou para que eu também me tornasse um assassino sem
causa, ancorado no nada?
...
Ele desabotoou, então, o capacete, desembaraçou o machado do laço, mas sem
retirá-lo inteiramente. Limitou-se a mantê-lo seguro com a mãos direita,
debaixo da roupa. Uma fraqueza terrível apoderara-se-lhe das mãos. De instante
a instante, sentiu que enrijeeciam mais. Temia deixar o machado escapulir.
Súbito, a cabeça começou a rodar.
-
Mas como ele arrumou isso? Está tudo embaraçado! – disse a velha,
movimentando-se em direção a Raskólnikov. Não havia um segundo a perder. Tirou
o machado de sob o capacete, levantando-o com as duas mãos e, com um gesto
seco, quase mecânico, deixou-o cair na cabeça da velha. Suas mãos pareciam-lhe
não ter mais forças. Entretanto, readquiriu-as assim que vibou o primeiro
golpe.
A
velha estava com a cabeça descoberta, como de hábito. Os cabelos claros,
grisalhos e escassos, abundantemente oleados, formavam uma pequena trança,
presa à nuca por um fragmento de pente. Como era baixa, o golpe-a atingiu-a nas
têmporas. Deu um grito fraco e caiu, tendo tido, no entanto, tempo de levar as
mãos à cabeça. Uma delas sustinha inda o penhor. Então Raskólnikov
malhou-a com toda a força, mas duas vezes. O sangue corria como se
jorrasse de um copo caído. O corpo fraquejou: recuou para deixá-lo cair, depois
debruçou-se sobre seu rosto. Já estava morta, os grande olhos estatelados
pareciam querer pular das órbitas. A testa e o rosto, inteiros, estavam
contraídos e desfigurados pelas convulsões derradeiras. Colocou o machado no
chão, junto do cadáver... Estava na plenitude de sua presença de espírito e não
sentia mais nem perturbação, nem vingança, apenas suas mãos continuavam a
tremer. Mais tarde lembrava-se de ter sido excessivamente cuidadoso, prudente e
mesmo capaz de aplicar todos os seus cuidados para não se sujar...
Iniciava-se
então uma inversão de perspectiva: em vez de buscar descobrir o criminoso
analisando os fatos, na expectativa de que estes revelassem provas
justificadoras, focava-se no próprio criminoso – em suas camadas mais profundas
e silenciosas, nos labirintos psicológicos de sua alma – em busca de um sentido
para um ato sem sentido.
Nem
sequer questionei minha amiga sobre o motivo de matar aquele desconhecido.
Matar alguém conhecido – que feriu nossa alma – é diferente; agora, tirar a
vida de um ser invisível, sem qualquer representação em nossas vivências, era
simplesmente matar por matar. E foi exatamente isso que fiz.
Num
ato puramente mecânico, tirei a arma da cintura — não me lembro bem se era um
revólver ou um machado —, apontei-a para o desafeto — não sei de quem; apenas
sei que não era meu — e disparei: três tiros... ou talvez três machadadas.
Tanto faz. O corpo tombou em silêncio. Sem nome, sem endereço, sem passado, sem
futuro, sem identidade. Restava apenas um corpo – nada além de matéria extensa
– estendido no chão, sem vida.
Saber
que tive o poder de tirar aquilo que Deus concedeu — a vida — encheu-me de um
prazer perturbador, como se eu dissesse: “Você tem o poder de dar; eu, o de
tirar.” Em certa medida, nossos poderes se equivaliam. A um coube acender a
vela; ao outro, apagá-la. Com o poder de um, fez-se a luz; com o do outro, as
trevas.
Sem
que eu tivesse plena consciência, iniciava ali uma disputa com Deus. Queria
feri-Lo, destituindo-O do poder de controlar a vida, concedendo-a e tirando-a,
ao seu bel prazer.
Não
demorou para eu saber que o assassino daquele desconhecido já estava preso. Que
bom – assim não seria incomodado. Contudo, uma injustiça se impunha: um homem
inocente cumpria a pena que deveria ser minha.
Cheguei
até a agradecer a Deus, sentindo que Ele cuidava de mim e me protegia. Quem
sabe, sem que eu soubesse, o grande julgador do universo estivesse fazendo a
coisa certa – afinal, li no Livro de Jó que nada acontece por acaso e que tudo
está sob os cuidados de Deus. Vai saber se, naquela ação além da compreensão
humana, eu não estivesse, sem perceber, cumprindo uma missão divina.
Não
sabia em que hora da noite me encontrava, mas meu corpo sentia a eternidade de
cada instante. As noites de pesadelo são sempre longas, pois o sono é
superficial – ficamos entre a vigília e o adormecer, à espera da chegada da luz
do sol que devolve o mundo à ordem aparente.
Não
me lembro de quantos anos se passaram, mas por mais de cinco, aquele homem
permaneceu preso em meu lugar. Mantive-me em silêncio, como se coubesse a Deus
fazer justiça – e, de fato, Ele o fez. Quem sou eu para pôr sob suspeita o
veredito do Juiz dos juízes?
A
mandante do crime, tão criminosa quanto eu, também se calou. Entre nós, um
pacto foi urdido: cada um cuidaria do crime do outro, e ambos simulávamos uma
amnésia profunda em relação ao ocorrido. No entanto, como se sabe, nenhuma
mentira ou transgressão permanece oculta para sempre. Em pouco tempo, o fio do
novelo se desgarrou, revelando toda a trama. Minha cúmplice informou-me que
começavam a suspeitar que o criminoso preso era inocente, enquanto o verdadeiro
culpado continuava livre – o olhar da lei começava a se voltar em minha
direção.
Por
estranho que possa parecer, saber que a justiça me olhava trazia-me um certo
alívio. De fato, eu estava livre, não me encontrava encarcerado, mas apenas
fisicamente livre; estava, porém, aprisionado pela própria culpa.
A
única forma de me libertar seria ser preso: pagar pelo meu crime e cumprir a
sentença. Na cela, meu corpo estaria confinado, mas a minha alma estaria livre
da culpa, livre da prisão moral. O corpo, confinado. A alma, livre.
Não
me sentia culpado pelo assassinato — senti prazer, como já disse. O que me
corroía, porém, era saber que um inocente cumpria a pena que me cabia. Minha
culpa não era do corpo, era do espírito. Ela tolheu meus passos e tornou o
fardo mais pesado a cada dia — tornei-me um trôpego. Sem que eu percebesse,
fiz-me moralista; passei a ser meu próprio juiz — e o pior deles. Buscava a
minha própria prisão. Um imperativo moral impelia-me a libertar aquele que, por
minha causa, encontrava-se preso. Matar fora simples; o difícil era despir-me
da camisa de força moral que me fora vestida na infância.
Lembro-me:
um dia, roubei um livro – o roubo deu-me prazer; noutra ocasião, matei um homem
– o crime também me deu prazer. Tornava-me viciado nas transgressões. Como um
dependente, buscava doses cada vez maiores: cada delito era um veneno
mais forte e, com ele, um prazer crescente na medida do perigo. O risco me
excitava. Caminhava sobre a linha invisível que separa o prazer da morte. A
cada passo, a incerteza do que viria — ou do que não viria — inflamava ainda
mais meu desejo. Excitava-me o caminho, não a chegada.
Eros
e Tânatos, entrelaçados, urdiam minhas ações; eu não passava de um fantoche em
seus dedos. Assim, movido por um impulso de prazer que se tornara
absoluto, deixei-me levar em direção àquele crime...
Meus
hormônios — dopamina, serotonina, testosterona, endorfinas, ocitocina,
prolactina — deixavam de travar batalhas entre si e conspiravam em uma única
missão: oferecer-me o prazer mais pleno. O crime transformava-se em uma festa;
bailava em paz, como se ninguém estivesse me olhando.
Quando
o dia mal amanhecia, minha cúmplice aproximou-se e aconselhou-me a me entregar.
Todos já sabiam que eu era o verdadeiro criminoso; a lei batia à minha porta.
Segundo ela, eu deveria assumir o crime sem arrastá-la para o delito e, em
troca, ela providenciaria, por meio de advogados – inclusive seu marido – uma
redução da minha pena. Eu sabia, porém, que ela não cumpriria sua palavra, pois
sua única preocupação era livrar-se daquele infortúnio.
Apesar de compartilhar a culpa com a minha “amiga”, a decisão de matar fora
minha. Coube-me a responsabilidade de puxar o gatilho naquele dia fatídico. O
delito era todo meu; cabia-me por inteiro. Eu era o verdadeiro assassino.
Sem
dar ouvidos às palavras dela e ciente de que estava sozinho, decidi me
entregar. Dirigi-me ao centro da cidade e fui até o prédio onde se encontrava o
homem da lei. Peguei o elevador e subi até o quinto andar. Após um longo
corredor, ladeado por diversas portas, deparei-me com uma que exibia a placa:
“Dr Juiz”.
Entrei
e encontrei uma sala pouco iluminada, de atmosfera sombria. No canto, uma
mesa; encostada à parede, uma poltrona de três lugares. Atrás da mesa, uma
secretária de ar burocrático – lembrando uma funcionária de cartório –
atendeu-me. Aproximei-me e disse:
-
Preciso falar com o Dr. Juiz.
— “Por favor, aguarde, ele encontra-se em atendimento”, respondeu-me.
Tinha
por hábito gastar o tempo de espera bisbilhotando a vida alheia. Sempre o fiz
enquanto aguardava atendimento médico. Na sala de espera, entretinha-me
imaginando a vida daquelas pessoas que, assim como eu, buscavam os cuidados dos
filhos de Hipócrates. Seriam casadas? Em que trabalhavam? De onde vinham?
Amavam? Eram amadas? Quais seriam seus pecados? Suas taras? Teriam cometido
algum crime? Qual teria sido o seu modus operandi? E como se comportariam
no segredo de suas intimidades?
É
quase uma forma de terapia entreter-se com a vida dos outros; observar a
existência alheia poupa-nos de horas excessivas de exame próprio. Sempre que
podia, evitava esse encontro: visitar o interior do meu interior era
arriscar-me demais. Quando essa possibilidade se insinuava, lembrava-me
de Fogo-Fátuo, de Drieu La Rochelle, no qual o personagem
Alain Leroy decide, numa noite, avaliar a própria vida; ao fim da retrospectiva
existencial, ouve-se um estampido — um tiro. Faltando-me coragem para olhar-me
tão de perto, por instinto de preservação, desviava o olhar em direção a um
“não eu” qualquer, de preferência um desconhecido – só para fugir de mim.
Em
certa medida, projetamos nesses desconhecidos o que não queremos ver maculando
a nossa alma. Não há muita graça em percorrer caminhos já trilhados, nem em
visitar terras já conquistadas. Como um marinheiro curioso, buscava desbravar
novos mares.
Infelizmente,
naquela sala, entre mim e a secretária, não havia mais ninguém. O silêncio era
absoluto — apenas o velho relógio, no alto da parede, marcava, com seu
irritante tique-taque, a lenta passagem do tempo. O cenário não convidava a
permanecer. As paredes, manchadas e opacas, pareciam não receber uma demão de
tinta há anos. Cortinas encardidas pendiam das janelas, imóveis. No chão, um
velho tapete desbotado ainda insinuava o desenho de uma catedral – ou algo
próximo disso -, mas o tempo e os passos lhe haviam apagado as formas.
O
ar tinha um gosto acre, uma lembrança persistente de fumaça e tabaco, como se
todo o cigarro do mundo tivesse sido fumado naquele lugar – e seu odor se
impregnara em cada poro daquelas paredes. Era, de fato, um ambiente feio e
insalubre. Mas, por estranho que pareça, eu não queria sair dali; aquele lugar
me atraía. Sentia-me confortável em sua decadência; nossas decadências se
comunicavam silenciosamente.
Faltava
matéria humana para que eu pudesse exercer meu hábito. Um certo desespero
abateu-se sobre mim e, sem alternativa, vi-me na iminência de correr o maior
dos riscos: olhar para mim mesmo.
Ufa!
Que alívio. Um barulho vindo de fora quebrou o silêncio da espera. De repente,
entraram dois policiais conduzindo um homem de péssimo aspecto: cambaleante e
algemado. Prenderam-lhe as algemas ao braço de uma cadeira; ali ficou sentado,
quase adormecendo. Percebi que balbuciava o nome de uma mulher, sempre
acompanhado da mesma frase: “Eu te amo.” Como um mantra, repeti-a
incessantemente.
Perguntei-me:
quem seria essa mulher que aquele bêbado tanto amava? Que mulher não invejaria
ser tão amada? Seria ela sua esposa, sua mãe ou uma amante? Sem me dar
conta, já exercia o que mais gostava de fazer enquanto esperava: especular
sobre a vida alheia.
Não
demorou muito e o enigma foi revelado: ele matara uma mulher – a mesma
cujo nome murmurava sem cessar. Não suportara a traição. Amara demais.
Matara.
Naquele
momento, em oposição aos românticos empedernidos, constatei: quem ama, mata.
Éramos
— ele e eu — criminosos. Por veredas distintas, havíamos arrancado alguém deste
mundo e lançado-o ao poleiro das almas. Só isso nos aproximava; no mais, nossos
crimes não se tocavam. O dele fora um crime comum, um mero delito; o meu, uma
verdadeira obra de arte.
Em
estado de embriaguez, sem pleno domínio de si, ele matou a mulher que amara.
Dominado pela cólera, perdeu a razão – um crime passional. Crimes assim ocorrem
diariamente: um bêbado mata a amada, um ato banal, próprio de um demente. Na
manhã seguinte, quando a bebedeira passasse, talvez sequer se lembrasse do delito.
Meu
crime, ao contrário do dele, era único. Não houve paixão nem traição: eu não
estava embriagado e não nutria pela vítima qualquer afinidade ou admiração —
era-me absolutamente indiferente. Foi um crime gratuito, sem motivações,
despido de códigos morais: uma tábua em branco - sem leis, sem deuses,
sem Sócrates ou Cristo a ditarem como o homem deve ser ou agir. Foi um
ato para além do bem e do mal. Cometi-o pelo puro prazer de matar. Perguntar
por que eu teria cometido tal crime, seria como exigir do artista que
justificasse sua obra. É uma pergunta sem resposta. A arte não se justifica:
ela é arte, simplesmente.
Quando
tudo terminou, senti-me leve, livre de culpa, estranhamente feliz. O corpo a
meus pés parecia uma obra de arte concluída; sentia-me um artista ao
finalizar sua criação. Tal feito exigia celebração. Procurei a garrafa de
Château Angélus, guardada na estante à espera de uma ocasião especial. Era
esta. Tim-tim - brindei à minha liberdade.
Pensava
que, diante da nobreza e da beleza do meu ato, não havia crime algum — havia
apenas criação. Meu crime não maculava: sublimava. Era a expressão da beleza em
sua causa final, o modelo do delito originário, do qual todos os outros seriam
meras cópias, aproximações imperfeitas desse delito ideal.
Acabara
de compor um quadro renascentista. Nada lhe faltava: era antropocêntrico — um
homem estendido ao chão, em um quarto quase escuro, não fosse a presença de
alguns feixes de luz que atravessavam as frestas do telhado, criando um
equilíbrio preciso entre luz e sombra. O crime expressava um realismo intenso.
As partes desnudas desenhavam uma anatomia rigorosa, revelando forma e
proporção. Olhando mais de perto, era possível perceber o esboço de um sorriso
enigmático nos lábios do defunto — um leve traço de ironia e mistério. O meu
crime era a minha Mona Lisa. Em meu ato, pulsavam a luz e a sombra de
Caravaggio, a harmonia de Rafael e a graça de Botticelli.
Não
condenava os que me julgavam um criminoso: eram apenas homens, desprovidos de
senso estético, incapazes de reconhecer a arte onde só veem culpa.
Ouvir
uma voz: - Senhor!
Era
a secretária, que veio me informar:
-
Senhor, pode entrar. O Dr. Juiz o aguarda.
Calmo,
seguro da convicção de cumprir um dever moral, levantei-me. Contemplei, pela
última vez, aquele pobre coitado que, por amor, cometera um crime comum - como
se me despedisse do mundo das sombras – e segui em direção à minha liberdade.






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